terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Meu coração é mar bravio

Eu quis escrever sobre você, talvez por não ter coragem suficiente de te falar.
Talvez por que estive preocupada demais escolhendo palavras que nunca sairão da minha boca. Talvez por que eu estivesse fingindo que você não estava sentindo nada e que fui eu quem floreou tudo.
Eu podia começar te pedindo paciência e te explicando sobre o meu coração e sobre como ele está bagunçado, mas isso não deixaria as coisas claras de fato. Então eu decidi ser honesta com você porque é como eu gostaria que você fosse comigo.
Recentemente passou um furacão aqui dentro, sabia?
E eu ainda estou recolhendo as coisas que ele derrubou. Ainda tem muito trabalho a ser feito e eu não estou podendo receber visitas. 
Eu sinto muito.
Quem sabe um dia você possa me levar pra tomar aquele chocolate quente na livraria ou eu tome coragem pra te levar na minha pedra preferida na praia. E pode ser que você me conte sobre esse fascínio que você tem pelos filmes dos anos 70 e 80 ou eu te fale das minhas teorias mais loucas sobre o poder das escolhas e os pontos de luz brilhantes flutuando no universo.
Não vou negar. Já contei sobre eles pra alguém. 
Já ri das coisas mais improváveis, cantei as melhores músicas, expliquei sobre as conchas e os anéis, apresentei o meu quarto, a minha casa e a minha vida.
E é por isso que as coisas estão como estão. E é por isso que agora eu tenho mais medo do que antes. Eu sei, ou pelo menos acho que sei, que você não vai entrar com a intenção de bagunçar a minha arrumação. Mas um dia você vai fazê-lo, e eu ainda não estou pronta pra te ver mudando minhas coisas de lugar, OK?
E sinceramente, é melhor você não me esperar estar. Isso aqui vai demorar muito tempo. Vou ter que remover os quadros e a pintura. Mover tudo de lugar. Tirar as ervas daninhas do jardim e abrir as janelas pra deixar o sol entrar. 
Até lá, a pedra na praia continua sendo só minha.
As minhas músicas, eu vou tocar e cantar só pra mim.
As teorias vão ser minhas risadas de canto da boca, quando eu observá-las fazendo sentido com as pessoas do meu cotidiano.
Peço a você que não insista.
Pois ao redor da minha casa agora tem um mar bravio e você pode naufragar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Let free


Hoje quando levantei, pela primeira vez, meu primeiro pensamento não foi você.
Desci e fui tomar café esparramada no sofá que já dormimos juntos, e percebi que lembrar disso já não me causava nenhum calafrio. 
Fui até a cozinha e lavei os pratos ao som de Since i've been loving you, esperando pra saber que tipo de reação isso me causaria. Nada.
Fui além.
Subi as escadas correndo, empurrei as tralhas de trás do armário e puxei de lá seu violão. Lembrei das vezes em que você usava ele pra tocar pra mim. Arrisquei tirá-lo da capa e tocar algumas notas. 
Parecia um violão comum agora.
Abri o armário e no meio das minhas roupas encontrei uma das suas camisas. Toquei, e me dei conta de que era só uma peça de roupa. A primeira peça de roupa masculina a dividir o meu armário isso é verdade, mas ainda assim, só um pedaço de tecido ao qual eu atribui sentimentos demais.
Não era você. Você não se materializaria ali, e nem eu queria isso.
Procurei dentro de mim aquela saudade que me apertava tudo quando eu esbarrava com alguma coisa sua que ficou pelo meu quarto... E não a encontrei.
Um dia eu li que a saudade é como um pássaro, que a gente teima em prender na gaiola pra cantar só pra gente. É dolorido e sofrido, mas o canto é tão bom que suprime a culpa da prisão e da maldade.
Se isso for realmente verdade, meu bem-te-vi saudade fugiu. Encontrou uma saída, o danado. Quando de propósito eu esqueci o trinco da gaiola aberta, ele se esquivou e saiu voando.
E eu sei e fico feliz que ele não vá voltar.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

PROCURA-SE UM AMOR - Adriana Falcão

 
Não precisa ser perfeito.
Não precisa ser para sempre.
Não precisa ser o maior de todos, desde que seja imenso.
Aceito defeitos de várias espécies, menos a indiferença.
Já vi no filme, na novela, no romance, e até na vida real (se bem que já faz um tempo).
Sei que já foi mais frequente, ou porque antes a gente era diferente, ou porque o mundo era outro, mas ouvi dizer que existe ainda.
É raro, eu sei, apesar disso procuro.
Pode ser louro, moreno, bonito, feio, médio, esquisito, muito magro, meio bronco, pode ter cabelo liso ou cacheado, não importa.
Se ele tiver alguma coisa de John Malkovich misturado com Manoel de Barros, seria ótimo, mas não chega a ser exigência.
De preferência, que ligue todos os dias, sempre morrendo de saudade.
Seria lindo se ele me desse rosas vermelhas. (Mas também não precisa.)
Exijo apenas que ele me beije arrebatadoramente sempre que a gente se encontre, que ele fique pelo menos um pouco triste toda vez que a gente brigue, que ele fique bambo, às vezes, quase morto de desejo. (Não vou sugerir aqui a possibilidade de ele exagerar um pouco, se for preciso, para me deixar mais contente, apesar de saber que essa é uma solução possível.)
Procuro um amor de verdade. (Mesmo que ele minta, muito raramente.)
Estou plenamente consciente de que não é fácil.
Que dá trabalho.
Medo.
Insegurança.
Dúvida.
Dívida.
Traz cobrança.
Problema.
Sofrimento.
Ainda assim, estou preparada para arriscar, chorar, me descabelar, me virar, rebolar, me atirar do 8º andar, se valer a pena.
Prometo estudar sociologia, se for o caso, para tentar entender se antigamente os homens eram mais atirados ou se as mulheres é que eram mais simples. Se chegar a uma conclusão não muito satisfatória, prometo ainda dar a volta por cima.
Só vou dar uma única dica: homens, atenção, mulher gosta de ser seduzida.
Através de pesquisas, observações, entrevistas ou o que se julgar necessário, procurarei compreender os motivos que levam o sexo masculino a priorizar o trabalho e o sexo feminino a dar tanta importância ao amor. (Será essa a maior dificuldade de todas?)
Levarei em consideração fatores biológicos, históricos, atávicos, hereditários, atípicos.
Juro que, para me inspirar, vou ler muita poesia.
Me comprometo a ser doce, louca, carinhosa e compreensiva, na medida do possível.
Garanto aprender culinária, se isso for imprescindível.
Faço qualquer negócio.
Só não quero me jogar e depois ouvir um “ah, porque não sei o que lá”.
Porque não sei que lá, nada. Aceito tudo, a não ser desculpas esfarrapadas.
Faço questão de um mínimo de certeza, o suficiente para viver alguns dias felizes e algumas noites muito quentes.
Não abro mão de uns poucos detalhes: segredo no ouvido, muita libido e pelo menos um olhar apaixonado por semana.
O ideal é que o começo seja explosivo e o final – se houver final – seja por alguma razão inevitável. (Se não for o ideal, não faz mal. Tudo tem os seus defeitos.)
Não é difícil me encontrar.
Tenho uns 20 e tantos anos, tenho lá os meus encantos, me chamo Suzana, Marina, Tatiana, Isabela, Ana Cecília, Karina, Beatriz, Daniele, Sabrina, Pollyana, Sarita, Manuelita, Simone, Malena, Érika, Gabriela, Camila, Carolina, Mariana, Beth, Natara, Janaína, Josane, Thaís, Ronielle, Maria, e estou espalhada pelo mundo inteiro.


Adriana Falcão, crônica Procura-se um amor, publicado na Veja Rio, 27 de novembro de 2002.