É de manhã.
Olho para trás, de rabo de olho, e te vejo dormindo de costas pra mim. Fico tentada a me virar e mexer no seu cabelo mas por receio de te acordar não faço nada.
Lá fora o dia está nublado mas mesmo assim eu chuto que seja por volta de 9 da manhã ou 10. Tudo isso com meu sentido de Crocodilo Dundee de olhar pro céu e quase sempre acertar com precisão que horas são. É inevitável sorrir quando lembro a expressão que você faz toda vez que eu acerto. Você sempre arregala os olhos e dá um solavanco pra trás com a cabeça, num misto de choque e descrença que em segundos muda pra um sorriso e a frase: "Olha só você!", como quem pensa "Foi sorte!".
Isso depois de conferir no celular, claro.
Não quero de forma alguma endeusar você ou o que temos vivido mas é nítida a felicidade que você me traz. Ainda que eu não saiba o que vai ser de nós no mês que vem ou se ainda vamos estar juntos daqui a um ano, é a primeira vez que eu não me importo em saber. Não me entenda mal, não é que eu não faça questão, mas com você tenho aprendido que não podemos controlar todo o curso da nossa vida por quê mesmo que tentemos, na hora h, no dia x, algo acontece e muda tudo. E convenhamos que viver sem planejamento tem feito da nossa vida uma aventura atrás da outra.
Mesmo que eu me pegue vez ou outra imaginando como seria bom ter todas as manhãs de preguiça com você ou a liberdade de te ter ao ao alcance de um abraço, é preciso deixar que o acaso faça o seu papel.
Parece assustador viver assim, na incerteza. Mas do que realmente temos certeza nessa vida?
Acontece, meu bem, que das incertezas mais bonitas que eu poderia escolher, uma me levou até você.


