Lembro do dia em que nos mudamos para a casa nova e vazia.
Você veio chegando, se enrolando toda, com as orelhas baixas e aquele olhar que só você sabe fazer. Nós nunca tínhamos nos visto, eu e você. Nem quando eu e minha tia íamos toda semana namorar a casa nova em construção, eu nunca tinha visto você.
Naquele dia foi você quem viu a gente e veio.
Quando te vi fiquei surpresa, afinal, uma das coisas que eu sempre comentava era que nunca via animais de rua por aqui. Até achava que tinha carrocinha e ficava horrorizada só de imaginar o que acontecia com os animais que eram pegos. Na minha cabecinha, eram sacrificados e viravam sabão.
Você parecia tão linda. Mesmo com as costelas tão a mostra e os ossos da coluna fazendo um arco até o fim das suas costas, e a sua cabeça parecia um monumento de tão exagerada e ossuda em relação ao resto do corpo. Admito, Baleia, você tava só o pó da rabiola.
Eu te quis bem desde esse momento.
Não me importei com as suas sarnas e te fiz carinho. Um serzinho tão desprotegido você parecia.
Com o passar dos dias eu descobri que você era a cachorra da obra, sem dono, que comia os restos de comida que os pedreiros te davam. Lembro que alguns te queriam tão bem quanto eu, e outros te maltratavam, batiam em você e te levantavam pelas orelhas. Monstros!
Eu tentei te proteger mas eu passava o dia todo fora e não podia vigiar as maldades. Você hoje tem trauma de quem toca nas suas orelhas, e eu entendo e respeito.
Nos mudamos e aos poucos e fui usando parte do meu salário pra comprar coisas pra você. Ração, vasilhas de comida e água, e alguns brinquedinhos. Você foi chegando mais, se acomodando, se apossando do meu coração. Quando eu vi ele já era teu e na primeira vez que você descobriu que o mundo era mais do que a nossa rua, e sumiu (por 3 dias) com outros cachorros do bairro, eu chorei, por que achei que tinha perdido minha primeira amiga nessa cidade nova onde eu não conhecia ninguém.
Depois você voltou. Ufa. E sumiu outras vezes também. Aprendi que você tem espírito de aventureira e que eu nunca poderia te prender.
Você é tão linda agora. Tão grande, brincalhona e convencida.
Tento brincar com você todos os dias quando te encontro no condomínio. Converso e te conto meu dia, e insisto em perguntar "Como foi seu dia? O que foi que a senhorita fez na minha ausência, ein?" e você vem se enrolando toda, e vindo pra mim com a mesma expressão do primeiro dia em que te vi e eu só consigo sentir amor.
Se você pudesse realmente entender alguma coisa do que eu digo, se me fosse dada a oportunidade de você entender, eu saberia exatamente o que dizer.
"Obrigado.
Por me ensinar a valorizar coisas tão simples como um prato de comida. Por ter insistido em brincar comigo quando eu só queria chorar e continuar triste. Por ter me dado amor sem esperar nada em troca. Por ser tão especial e aparecer na minha vida quando eu já não esperava que mais nada de bom acontecesse.
Obrigado, Baleia. Dona do meu coração."

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