A roda da carruagem atolou antes da festa.
Um dos cavalos rompeu os estribos e fugiu.
Faltavam dez pra meia-noite.
Mais cedo ela visitou seis modistas até achar uma que estivesse livre pra fazer o vestido perfeito para a ocasião.
Ela sabia que ele iria pedi-la em casamento naquela noite.
Correu alvoroçada de volta para a carruagem.
O cocheiro levou sete minutos para desatolar a roda, agora só lhe restavam três minutos, mais as cento e vinte batidas que seu eufórico coração dava.
Chegou à festa meia-noite e cinco.
Tudo bem, ele a amava e não iria se importar com tão pouco atraso.
Subiu as escadas o mais rápido que seus pezinhos tamanho 37 lhe permitiam.
Esbarrou no mordomo de nariz empinado que lhe pediu o convite.
Onde ela o havia deixado mesmo?
Refez os passos desde a saída de casa, passou a mão no colo suado e espremido dentro do espartilho. Sentiu uma textura diferente.
O convite!
Lugar mais seguro pra guardá-lo não havia.
Jogou-o em cima do mordomo sem se preocupar em ser anunciada.
Vasculhou ávidamente o salão. Nada.
Procurou-o junto às rodas conversa. Nada.
Oh céus, já era meia-noite e trinta e um!
Ele cansou-se de esperar e foi embora?
Um soluço de desespero se formou naquele peito comprimido.
Decidiu ir até a varanda tomar ar.
Ele estava lá.
Tomando outra nos braços.
Distribuindo beijos a uma outra que ela nem se deu ao trabalho de reconhecer.
Correu.
Em direção a porta.
Correu.
Esbarrou em outros convidados.
Correu.
Não ouviu o chamado do cocheiro que já a esperava na carruagem.
Correu.
Até não saber onde estava,
Parou. Olhou. Desconheceu.
Sentiu medo e voltou a correr.
Tropeçou e caiu.
Ouviu um CRECK.
Os sapatos que foram presente da sua mãe. O salto já era.
Nada mais importava. Caminhou.
Às 3:00 da manhã ela girou a chave na porta.
Descabelada, maquiagem borrada, vestido sujo e o sapato de salto quebrado nas mãos.
Sentou e sentiu o roçar do gato em sua perna.
Suspirou.
Fechou os olhos.
"Que noite, meu Deus. Que noite."
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